quase em português

Li algures uma piadinha sobre a atracção austríaca pelas caves: agora este Fritzl, antes a Natascha Kampusch, e muito antes Freud e aquela fixação nos nossos subterrâneos. A questão austríaca, portanto.
Pelos vistos, já nos esquecemos que há meia dúzia de anos era a questão belga. Dutroux, lembram-se?
E no Reino Unido, já que o artigo foi aí publicado: não há pessoas desaparecidas? O autor não admite a hipótese que os desaparecidos ingleses estejam em caves? Ou será que são todos exportados para a Áustria, o país dos nazis-que-são-avós-simpáticos?

Nem é preciso descer as escadas austríacas. O que é que se passa nos quartos das crianças? Qual é a percentagem de crianças vítimas de abuso sexual dentro da família? Não é só na Áustria que as pessoas não se sentem à vontade para denunciar com base em indícios vagos.

Também já aconteceu o contrário. Por exemplo, o caso de uma educadora de infância que interpretou erradamente um sonho que uma criança contou, avisou o serviço SOS criança, e assim deu cabo de uma família. Quando se deram conta do erro, já tinham destruído completamente a confiança entre os pais, e entre estes e os filhos.

Eu cá sou muito austríaca, na definição glaviniciana. Já vi várias vezes pais a bater forte e feio nos filhos, e não fiz nada. Hoje vi uma criança de 5 anos a pedir, e não a fui entregar a uma instituição estatal.
E então, sr. Glavinic: devia ter feito o quê?


"Já vi várias vezes pais a bater forte e feio nos filhos, e não fiz nada. E então, sr. Glavinic: devia ter feito o quê?"

Que lhe parece, Helena?


O que é que você faria, on?


Helena,
eu perguntei primeiro...
Mas aqui vai a resposta:
É difícil responder sem estar lá. Existem sempre nuances a ter em conta. Só lhe posso assegurar que se visse um pai a bater forte e feio numa criança e não fizesse nada, não me vangloriaria pela minha decisão. Que eventualmente até poderia ser aceitavel.
Thomas Glavinic é um austríaco que procura contribuir para uma reflexão sobre o que aconteceu no seu país.
Ao que parece o governo austríaco preferiu pagar a uma empresa de relações públicas para resolver o problema. Essa, não me parece ser uma atitude responsável.


PS: o link para a minha homepage nos comentários anteriores está errado.


nesta como noutras situações o difícil é dar-lhes a resposta adquada.

Cada um tem o inviolável direito à sua privacidade. E arrepiam-me algumas sociedades em que a delacção, por exemplo, entre vizinhos é fomentada e amplamente praticada. Sejam em atentados contra os animais, direitos humanos etc.
Mas passarmos como cegos por situações que se passam ao nosso lado e não queremos ver só porque nos incomoda, dá chatice, quebra a nossa rotina...também dá mostras de desumanidade e de falta de solidariedade.

Com a massificação urbana perdeu-se a capacidade de se estar próximo uns dos outros. É quase sempre "cada um por si".


on,
eu é que perguntei primeiro!
Não me estava a vangloriar. Estava a dar exemplos da dificuldade em tomar uma atitude, na vida real.

Estão a ir ao nazismo para explicar o caso Fritzl. Já li noutro sítio que o problema deriva de os austríacos não terem trabalhado o trauma do nazismo.
Que engraçado - a Espanha também deve estar cheia de caves, por causa daquele pacto do silêncio...
E Portugal, que ainda vive na ilusão dos brandos costumes?
Ah, pois. A Maddie.


Helena,

a pergunta inicial era feita a alguém que não lê este blog. Era uma pergunta retórica. Não conta.

Nunca ouviu falar de denúncia de maus tratos de crianças ou de actos de pedofilia feitos por vizinhos?

O que leu noutro sítio, não me parece que venha ao caso.

Não havia da minha parte qualquer intenção de a considerar que os austríacos são especialmente malévolos. Limitei-me a linkar um artigo que faz uma análise sobre a sociedade austríaca, feita por um austríaco, que talvez nos possa ajudar a compreender o fenómeno. O Lutz achou por bem linká-lo também, provavelmente por uma razão semelhante, independentemente de ele concordar ou não com o seu conteúdo.

"E Portugal, que ainda vive na ilusão dos brandos costumes? Ah, pois. A Maddie."

Tem provas de que o raptor/assassino da Maddie é português? Convinha entregá-las à polícia.


"Com a massificação urbana perdeu-se a capacidade de se estar próximo uns dos outros."

MC,
umas das particulariedades do caso Fritzl é não ter acontecido numa grande cidade. Isso torna-o ainda mais preocupante.


Zazie,
coloquialidades como "puta de merda" não me chocam por aí além. Quando muito mostram que a pessoa que as usa não se deu ao trabalho ou não é capaz de exprimir as suas emoções de forma tão incisiva como desejaria. Mas, faz mesmo falta usá-las?


Zazie, zazie...é possível falar destas coisas com um mínimo de racionalidade? Eu acho que sim.

Por suposto, nenhum de nós tem um caso de caves perto de casa. Ou parecido sequer...mas nunca se sabe. os vizinhos austríacos não souberam.

Uma coisa são umas galhetas bem dadas a um puto com um acesso de rebeldia, outra são maus tratos continuados.

No caso da segunda hipótese, claro que se deve agir.


quantas vezes já assisti na rua ou em locais públicos (por norma centros de consumo que excitam estes acessos nas criancinhas) a pais à beira dum ataque de nervos e alguns a agirem de forma física. Partir com porrada para cima deles ou chamar um polícia? Só se não soubesse o que é ser mãe e pai numa situação análoga.


depois, por muito que nos choque (e choca) estes casos, temos de os ver como excepções que felizmente são. Nem todos os homens andam a encerrar crianças e jovens em caves.


On e MC,

para mim, "forte e feio" é uma palmada com força. É quando os pais perdem o controle sobre si próprios, e usam muita mais força do que a que é pedagogicamente aceitável. Se é que alguma vez uma palmada é pedagógica.
Continuo sem saber o que fazer. Se conheço as pessoas, e digo algo, vão achar que eu sou arrogante. Se não as conheço, vão achar que me estou a meter na sua vida privada.
Quando eu era criança, era normal dar tareias aos miúdos. Felizmente, isso é cada vez menos aceite.
E que fazer com as crianças que são feitas pedintes profissionais? A gente vê, as ruas andam cheias delas - quem faz alguma coisa?

O autor do artigo defende que os austríacos se especializaram em não ver o que acontece à sua volta. Não concordo com isso. Quer dizer: não são só os austríacos.
E, já agora, mc, não é uma questão de meios pequenos ou grandes. Não foi numa aldeia portuguesa que uma anciã deu tais maus tratos ao marido entrevado, que este acabou por morrer, e a população, que desconfiava de alguma coisa estranha, acabou a comentar que "ele teve o que mereceu, quando era ele o mais forte fartou-se de bater nela"?
Não é nas aldeias que mais se usa o ditado "entre marido e mulher ninguém meta a colher"?
Não digo que está bem. Digo apenas que não é só na Áustria que as pessoas e as comunidades convivem com o horror pressentido na casa ao lado e têm mecanismos para o ignorar.
E que, quando alguém diz alguma coisa, corre o risco de ser visto como denunciante por toda a comunidade.

Quanto à Maddie, invoquei o caso mais mediático para lembrar que em todos os países desaparecem crianças, não é só um caso austríaco. Foi um erro. Devia ter usado o exemplo da Casa Pia.
Não sei se a Maddie foi raptada por um português, mas sei que não serão só estrangeiros os que raptam e abusam de crianças em Portugal.
Depois do desaparecimento da Maddie apareceu a dona de uma tabacaria a dizer que viu logo que aquilo ia acontecer. Viu, mas não disse...


Zazie,
"a palavras loucas..."
Não preciso de comentar. Nem sequer precisei de ler tudo.


certo, Helena.

Eu nem precisava desta tua explicação porque percebi muito bem o que querias dizer.

E eu não devia fazer distinção entre meios urbanos e rurais. cada um tem as suas virtualidades e defeitos. se eu vos contasse aqui a conversa que uma vizinha me veio só para saber onde tinha estado eu no fim-de-semana. É cómico mas o pudor impede-me de contar.

E não me esqueço de um caso da minha infância, cuja lembrança que comove sempre. uma família até proeminente na comunidade, tinha um filho deficiente mental. Que tratava pior do que os cachorros lá de casa. Aquilo afligia o meu coração de criança, mas ninguém fez nunca nada. Fazia parte da cultura social daquele tempo.


Helena,
a acusação que fez a propósito do caso Maddie não foi um erro. Foi um acto infame.

"Depois do desaparecimento da Maddie apareceu a dona de uma tabacaria a dizer que viu logo que aquilo ia acontecer. Viu, mas não disse..."

A dona da tabacaria é tonta. Era impossível prever o que aconteceu no caso Maddie. A Helena vai atirando uns comentários avulsos. Quem se embrulhar neles e se começar a justificar, fico enleado numa teia donde nunca mais sai. Adiante.


A Helena dirige a discussão numa certa direcção:

"Já vi várias vezes pais a bater forte e feio nos filhos, e não fiz nada. [...] E então, sr. Glavinic: devia ter feito o quê?"

Depois esvazia a discussão declarando

"para mim, forte e feio é uma palmada com força."

Muitas pessoas deixam-se apanhar por esta estratégia, usada de forma consciente ou inconsciente pela Hekena. Ficam com a sensação de terem sido ludibriadas algures, sem saberem muito bem onde. Convem explicar o que aconteceu.

Voltamos portanto ao princípio da discussão, se é que vale a pena continuar.

Afinal o que é que tem contra o artigo?


A Zazie saiu do asilo.


Fugiu, quero dizer. E agora anda a monte.


on,
pensei que estava claro o que eu tinha contra o artigo: tenta transformar num problema austríaco aquilo que acontece em muitas outras sociedades. Para mais, vem-nos com a história do passado nazi ainda não trabalhado. Também não gosto daquela generalização sobre os austríacos que não moram em Viena. Parece-me demasiado simplista.
Em especial a frase "Austrians hardly ever notice anything that might cause them discomfort" - está tudo certo, excepto o "Austrians": a frase pode ser aplicada a muitos outros países.
Dei o exemplo da Bélgica. Dei o exemplo da Maddie para mostrar que em Portugal também desaparecem crianças sem ninguém se dar conta de algo anormal e tomar uma atitude. O que é que isso tem de infame?
(A tragédia da Casa Pia é um exemplo bastante melhor de uma sociedade que "hardly ever notice anything that might cause them discomfort".)

A dona da tabacaria não é tonta, apenas mostra o óbvio: depois de se descobrir o horror, toda a gente se pergunta "mas se era tão evidente, porque é que ninguém viu e ninguém disse nada?". O problema é que, antes da revelação, ninguém sente que haja evidência suficiente.
No caso do Fritzl, o que é que havia para ver? Que era um pai de família bastante déspota, e que gostava de passar umas horas sozinho na cave.
Isto era motivo para ir à Polícia?!
E prova que os vizinhos dele ainda não digeriram o passado nazi?!
O artigo é muito fraquinho.

A questão do Lutz é mais interessante: como é que se equaciona o respeito pela privacidade alheia com a suspeita de que algo de errado pode estar a acontecer na casa ao lado?

Tentei alargar o âmbito: das caves para o abuso de crianças na própria família. Caves ocupadas com prisioneiros, não deve haver muitas entre os nossos vizinhos. Mas abuso sexual de crianças: a acreditar nas estatísticas, nenhuma rua de nenhuma cidade estará a salvo disso. Os nossos vizinhos, portanto. Vamos passar a andar na vida com olhos de desconfiar de tudo e de todos?


Oh! Zazie eu bem tento seguir a tua linha de pensamento, mas não é fácil, minha linda. Não estás em tratamento? O que é que a gente faz? A ver uma pessoa autoflagelar-se e sem poder ajudar? Hum? Hum? Denunciamos o caso a quem? Vamos buscar-te aonde? Se um continho infantil pudesse ajudar...


Títulos:
Zazie no hospício
Porque é que a tia Zazie já não vem aos almoços de domingo?
A tia partiu para uma longa viagem
Quando os crescidos se babam e fazem pena
etc, etc


É certo que a loucura não tem limites, é uma das suas características. Por isso deves mesmo sabes bem do que está a falar, os corredores do asilo devem-te ensinar muita coisa. Só te digo: aproveita!


Pronto. Agora chega, diverte-te sozinha.


Helena,
de momento não posso responder.
Provavelmente a resposta será longa.
Mas não vou deixar de o fazer.

Lutz,
deixas-nos em autogestão?
Por favor não apagues nada.
Era uma pena.


on,
estou a sair para uma semana de férias. A resposta não tem pressa...
Quanto mais penso nesse artigo, mais parvo o acho. Objectivamente, que indícios é que os vizinhos do Fritzl tinham para desconfiar e ir denunciar à Polícia?

E, já que estamos a falar em assistir a situações estranhas e não fazer nada: há aqui uma pessoa que descarrilou completamente. Embora não perceba muito de psiquiatria, este caso parece-me grave.
Todos estamos a ser testemunhas disso.
Ninguém se preocupa que na vida real essa pessoa possa estar a precisar urgentemente de ajuda profissional?

O que é que se deve fazer num caso destes?


A menina que anda com barritas na mala está sempre à espreita. Aqui e nos blogues que detesta. Não sei porquê, deve dar-lhe um gozo especial, faz parte da patologia. A mim não me interessa nada a patalogia da Zazie (a propósito, nome da cadela de um amigo meu, uma staffordshire terrier de olhos em alvo), ela é só estupidamente mal-educada (será que apanhou quando era pequenina ou não apanhou? aceitam-se apostas, que é para sabermos que o contrário do que lhe fizeram é que está bem feito para as crianças não darem nisto).
E pronto. Zazie:
Vou estar na FNAC às 19 horas para uma sessão de autógrafos no dia 24 de Maio. Aparece com as barritas.


Amigos, so reparei agora na infestação. Tentei limpar. Espero que não apaguei algum comentário vossos por engano. Caso que aconteceu, as minhas desculpas. Lamento se alguns dos vossos comentários deixaram agora de se entender, mas não há outro remédio. Recomendo que simplesmente não dão troco à Zazie.
Lamento também, ON, não ter correspondido ao teu pedido. Mas dispenso deste tipo de animação no meu blogue.


Olá, Lutz.

Por mim, podias ter deixado. Estava a pensar imprimir para um dia recordar. Mas tenho mais mimos espalhados por outros lados.

Disto tudo foi bom ficar a saber que a Sara escreve contos infantis. Boa sorte, sempre!

Boas férias para a Helena.

E para o ON um puxão de orelhas por estar a gostar do pandam. Ou não posso? Violo algum direito?

Lutz, vai é postando que a gente gosta de te ler, sempre!


MC,
Obrigada!

Não sabias da Sara?
Recomendo vivamente! Por exemplo: "A Princesa que queria ser Rei".


Olha só a publicidade!!! Será que a Zazie vai comprar? E esfrangalhar a seguir?

Boas férias, Helena.

Abraço, MC.

Olha-me só para este complot esquerdista!

GRRRR!


Obrigada, Sara.
Vou tentar ensinar os holandeses a ser tolerantes, que eles ultimamente andam um bocado desnorteados.
(Nem que para isso precise de lhes dar um bom par de bofetadas.)


Ao fazer a mala, o meu filho de 11 anos perguntou: "não é grande ideia levar a minha t-shirt da selecção alemã de futebol, pois não?"

Bem, e já que estou a falar dos holandeses...
Antes de começar o mundial de futebol na Alemanha fizeram um inquérito sobre as frases que deviam pôr nos autocarros que levariam os holandeses para a Alemanha. Entre muitas do género "rumo à vitória", e assim, alguém sugeriu escrever: "vimos cá buscar as nossas bicicletas".
O pessoal fartou-se de rir, mas acabaram por optar por um qualquer "rumo à vitória"
(Durante a guerra, os alemães roubaram as bicicletas todas aos holandeses.)

Bem, e já que estou a falar em roubar (até parece que já tenho as malas feitas...) outro dia li uma história muito engraçada: aquela fotografia célebre dos soldados russos a içar uma bandeira no topo do Reichstag foi (1) uma encenação para fazer a fotografia para a História e (2) retocada posteriormente, quando se descobriu que um dos soldados russos tinha um relógio no pulso esquerdo e outro no direito. Tinha andado a roubar aos alemães, como muitos outros, mas ficava mal um gajo ir das pilhagens para a fotografia para a História...


Sinto-me mais descansada, depois de ler o artigo. Até aqui pensava que era eu que tinha percebido mal: aqui há 2 ou 3 anos estive uma semana em Viena. E, embora toda a gente me tivesse dito maravilhas de Viena, não gostei. Claro que vi muitas coisas bonitas, museus e palácios, mas não gostei. A ideia com que fiquei foi que todas as pessoas sofriam do fígado! Pareciam todos zangados. Até os miúdos! Já me têm dito que foi por lá ter ido no inverno, mas fui a Munique no inverno seguinte, nevava que era um caso sério e gostei imenso.
Agora estou mais descansada. Há mais quem tenha mesma sensação, austríacos incluídos.




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