Reinventando Santa Maria

Gravatar Meu caro... não consigo enxergar no homem ignorante à política alguma voluntariedade para contribuir com essa loucura que se confunde com o poder. Entendo que o poder possui e utiliza mecanismos de contenção da ignorância para que ela não saia de onde está - com a ressalva de que cada homem é um louco-poderoso em potencial. Assim, há os que driblam, com recursos diversos, os referidos mecanismos, e ei-los loucos-poderosos.


Gravatar Dom,

Na verdade eu abreviei o comentário final até o limite do inteligível, nisso creio ter sacrificado a clareza. Veja, é menos uma questão de voluntariedade do que de inconsequência. Além do mais, o poder não é um lugar, uma pessoa ou uma entidade que se opõe a um grupo ou uma classe de pessoas (esse, aliás, é um dos atributos que o tornam tão poderoso e abrangente). Ainda que pensássemos assim, que pudessemos falar de poderosos e "oprimidos" -- o poder dos primeiros é sempre uma concessão dos últimos.

Mas estou perdendo o fio da meada, o que eu queria dizer sublinhando os perigos é que quando se perde a dimensão de responsabilidade do "povo", temos a falsa impressão de que os poderosos nasceram por geração espontânea. Quando na verdade, admitir um "louco" no poder é quase sempre um exercício de uma troca -- de sorte que a outra parte nunca é simples paciente na relação. Veja como nasceram grande parte das ideologias -- como tentativa de restaurar, na ordem das idéias, uma batalha perdida no campo material (vide o cristianismo de Nietzsche e quejandos). Os loucos poderosos de hoje não se ergueram senão às custas de uma inconsequência planejada, sim, mas essa inconsequência, esse alheamento, essa "alienação", é sempre um "o que você pode me oferecer em troca" -- e não o exercício de um poder despótico (pelo menos não em parte dos Estados modernos). Essa contenção da ignorância conta também com o consentimento daquele que é contido -- porque ele é frequentemente o resultado de uma espécie de suborno, através do qual se abandona qualquer outra perspectiva em nome da acomodação que, convenhamos, é sempre mais fácil e por isso mesmo, bastante atraente.


Gravatar Essa "inconsequência planejada" pode existir em alguns âmbitos (o MST, por exemplo, é formado por um punhado de inconseqüentes planejando suas ações e expressões). O que me refiro aqui é a inconsciência planejada - essa sim originada de fatores alheios à vontade. Dentre esses fatores, o principal é o conjunto de mecanismos já estabelecidos para manter o status atual das coisas: indivíduos dóceis, adestrados.

Mas se você deixar claro qual é a "moeda de troca" que o acomodado recebe nesse "suborno", talvez eu entenda melhor suas argumentações...


Gravatar Como eu disse o "conjunto de mecanismos já estabelecidos para manter o status atual" não se gera espontaneamente. E os indivíduos dóceis, domesticados, não são produtos da ação opressora do poder. A feição do poder nos dias de hoje não é a de um agente opressor, mas de um sedutor. Ele se define não pela imposição de barreiras e contingenciamento -- e não se limita ao Estado -- que entravam o status dos indivíduos na sociedade mas por criar uma organização de tal sorte que os indivíduos são aliciados por uma condição de conivência na qual são co-agentes.

Não é de hoje que o poder é analisado nesse aspecto aliciador. Veja por exemplo a "servidão voluntária" de La Boetié, como é possível que massas inteiras se subordinem a um único homem (ou poucos deles)? Nunca pensou que houvesse mais do que força empregada nesse domínio?

É um assunto complexo, mas em sua homenagem eu vou transcrever uma coluna de Lebrun em Passeios ao léu que ilustra bem a questão -- e que eu pensei que já tivesse transcrito aqui.




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