Reinventando Santa Maria

Bom que voltou a escrever sobre o amor. É uma pena que vc não escreva muito, sobre o assunto. O amor é o que importa. Agora, eu não acredito que o amor implica em posse. Amar é não possuir. Querer possuir outra pessoa é um defeito. Acho também que tem alguma coisa em comum entre seus posts sobre o amor e sobre política. Eu não sei o que é, será que estou enganada? Mas é uma pena que vc escreve pouco sobre amor, e que poucos se arriscam a dar a sua opinião sobre esse assunto. Gosto de seu blog por isso.


Gravatar Amanda,

Que bom que você gosta!
Há sim algo em comum, o amor e a política são dois aspectos imprescindíveis à organização social. Cumprem, cada um a sua maneira, papéis importantes na manutenção da sociedade. O amor é talvez ainda mais essencial, pois ele atua em bases biológicas. Então quando eu me ocupo deles, é sempre em vista de um cenário adverso, das consequências que observaríamos caso eles degenerassem.

Se conseguir ler e escrever o suficiente hoje a noite, estou com um post sobre "ilusões femininas" em mente. Talvez você goste.

Em todo caso, você precisa desenvolver seu argumento. Por que é um defeito e de onde tirou isso, por exemplo?

Abraços


Gravatar Lendo ocasionalmente seu blog, me deparei com este post instigante e mesmo não tendo a familiaridade necessária ( ou suficiente?) para compreender integralmente seu modo de escrever, ajudou-me a refletir juntamente com alguns trechos de um livro que leio neste momento. Amor Líquido é o seu nome e dentre várias considerações, Bauman escreve na página 46, “a afinidade nasce da escolha ...a intenção de manter a afinidade viva e saudável prevê uma luta diária e não promete sossego à vigilância”... Enfatiza que este mundo líquido ao qual pertencemos odeia tudo o que não se ajusta ao uso instantâneo, odeia o que pode parecer sólido e durável. Pensando então no que você escreveu , imagino que quando fala da posse , fala do comprometimento com o objeto, com o outro em quem podemos confiar e mesmo que este nosso comportamento seja arriscado e que possamos perder de fato ( ou ganhar, quem sabe...) mesmo assim continuarmos a arriscar, é por aí? Foi assim que interpretei o princípio econômico de que quanto maior o risco, maior o lucro e portanto maior a perda também, não é?
Parabéns pelo blog!


Gravatar Eu esperei anciosamente pelo texto que você prometeu sobre ilusões femininas. Fiquei muito curiosa. Quais são as "ilusões femininas"? Espero que não sejam ilusões que pertencem exclusivamente ao gênero feminino. Não gosto muito desse tipo de abordagem, pois geralmente elas são parciais e cheias de estereótipos. É claro que eu não espero isso de um texto seu, por isso a pergunta e o meu interesse em saber sobre seu texto. O título me chamou muita atenção.
Como assim o amor atua em bases biológicas? A política não tem base biológica também? O amor envolve política, é isso ou o contrário? Eu acho que a posse é natural, é instintiva, enquanto o amor é a superação da posse. Quem ama deixa o outro livre e tomar posse é dominar o outro, tirar a sua liberdade. Aguardo o seu texto sobre as ilusões e tomara que eu não me desiluda...


Gravatar Rô,

Juro já ter ouvido falar desse livro, mas não recordo a ocasião. Quanto a passagem que você destacou, bem, eu diria que o amor é híbrido: há algo de deliberado, há uma escolha, mas uma escolha entre objetos previamente selecionados, uma vez que a afinidade exige esse terreno comum. É um espaço obscuro, mas sem dúvida há lugar para a escolha. Quanto ao resto, estou de acordo. Fazemos do objeto amoroso um "porto seguro", quase sempre ele se confunde com o pilar fundamental da nossa estrutura psíquica. Ora, há um risco ai, o risco representado naquela frase popular: "colocar os ovos numa só cesta". O conforto de ter a vida suficientemente justificada pela existência de um ser familiar tem um preço: ao alto risco de perdê-lo. A vida sempre se afirma nessas diferenças entre o abismo e o topo, a desgraça absoluta e o êxtase supremo. Esse amor que nega a posse, para mim, é a expressão de uma vontade estoica de alguém que não tolera o risco, que não aceita que a felicidade possa estar submetida a uma contingência, a algo relativamente fora do seu controle.

Amanda,

Cuidado com as expectativas! Tô brincando! Mas o caso é que eu reconheço a função das generalizações. Tudo depende de como você lida com elas. Algumas pessoas acham que generalizações são autorizadas pela "natureza" das coisas, a "natureza" feminina, por exemplo. Bobagem, é apenas uma modo precário de lidar com experiências comuns. Não se pretende com elas representar todas as mulheres, mas tão somente forjar uma ferramenta para tratar com um certo cenário. São articulações precárias, mas eu destaco, imprescindíveis. Leia esse post que escrevi ano passado.

As ilusões que eu apresentarei são relativas a um certo modo de lidar com as relações amorosas que está geralmente vinculado à mulheres. O que não significa que todas elas estejam submetidas a essas ilusões, nem que os homens estejam a salvo delas. Em todo caso, prometo escrever sobre elas ainda nesse final de semana, então você me diz então se concorda ou não.

Quanto as bases naturais do amor, destaco uma parte ilustrativa do que eu escrevi: "O amor é um sentimento social porque ao fazer do meio uma etapa tão importante quanto o fim -- no roteiro biológico que é seu pano de fundo -- ele prolonga uma relação que originariamente estaria fadada a terminar assim que o gozo fosse alcançado. A sexualidade inibida em sua finalidade é conteúdo do amor e da amizade." A base natural é a compulsão sexual, o caráter social é a inibição que torna a consecução do ato um aspecto apenas secundário -- enquanto que naturalmente ele tem papel primordial -- e assim cria o sentimento de afeição que é o laço das relações duradouras, como a amizade e o amor. A política, numa dimensão mais ampla, conta também com bases biológicas, mas esse é um assunto mais longo ...


Gravatar Continuando..

A posse não é natural, não há razão pra ser. Tudo que a natureza quer na sexualidade é a reprodução, a posse é quase sempre uma necessidade social -- "a natureza quer a libertinagem", não a posse. A propriedade é invariavelmente um indicativo de algum grau de sociabilidade. Agora, não pense em posse como o sentimento caustrofóbico que algumas pessoas imprimem em suas relações, é apenas a exigência de que terceiros não estão incluídos na relação. Essa forma pode produzir desde uma convivência amena e respeitosa até a paranóia claustrofóbica que eu aludi.


Gravatar É possível amar o suficiente para que, sabendo que a sua proximidade com a pessoa amada a tornaria infeliz, se abra mão da convivência com a ela?
Explico melhor com uma exemplo: você ama uma menina mas não pode ir para junto dela; então ela decide ir para junto de você. Você analisa a sua realidade local e percebe que, caso ela permaneça com você, ela terá uma vida extremamente limitada em realizações, se comparada à vida que ela teria ficando onde está. Então, por amor, como expressão desse amor, você decide que ela deve retornar para o lugar de onde veio e fica torcendo para que lá ela realize toda sua potencialidade e, com sorte, encontre alguém que possa ser tão bom ou melhor do que você seria para ela.
Note que, neste caso, a única possibilidade de ficar junto à pessoa amada seria se esta viesse para junto de você, pois por alguma razão não explicitada você está impedido de ir para junto dela, por mais que você quisesse. Também é um caso atemporal. Não depende de uma espera.
Acredito que amar é, antes de tudo, desejar o melhor, a felicidade, para a outra pessoa. Mesmo que isso implique em perder esta pessoa, ou perdê-la enquanto amante.
Acredito que aquele que realmente ama, encontra a felicidade vendo que o objeto de seu amor está em plenitude ou, pelo menos, provendo os melhores meios para que este alcance a plenitude.
Agora, em uma situação em que duas pessoas estão juntas e possuem plena capacidade de realizar-se enquanto casal, concordo contigo. O tipo de cumplicidade que se espera de um relacionamento íntimo implica na abstenção de certas liberdades, o que não chega a ser um peso quando se ama verdadeiramente.
A posse se dá, desta forma, de maneira natural pela disponibilidade mútua e voluntária criadas por ambos, normalmente baseada no desejo de se estar junto pelo prazer que esta união proporciona, seja qual prazer seja este.


Gravatar Cláudio, a situação que você relatou é perfeitamente possível. Aliás, é possível amar mesmo sem ser amado, o que, para mim, é algo o mais diverso possível da situação da posse.

Mas eu visava um caso mais particular, eu queria saber se era possível admitir terceiros num relacionamento, se era possível admitir um outro que compartilhasse o objeto amoroso com os mesmos direitos, ou, pelo menos, com direitos semelhantes. A posse a qual me refiro tem esse sentido, do que é particular ao indivíduo, sendo vetado a qualquer outro.

Só para não deixar espaços em branco, é preciso ressaltar que, tolerar uma situação aparentemente incontornável por amor a alguém, desejar que, diante dessa circunstância, ela se realize com outro é algo que se entende pelo contexto. Mas é algo bem diverso do caso de ter e amar alguém e tolerar que essa pessoa frequente outros -- o que, para mim, descaracteriza o nossa noção de amor.




Name:

Email:

URL:

Comment:  ? 

 

Commenting by HaloScan