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Parabéns pelos seus comentários n o blog da Lu. Agora, "licencinha" pra ler seus textos. )
Gi |
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19/05/08 - 4:40 pm | #
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Leonardo, só pelo primeiro parágrafo já sei que gostar do artigo, simplesmente porque expõe o que ocorre, sobretudo, na internet, na tal "esfera" dos blogs. É o seguinte: analisar vira sinônimo de "ser preconceituoso".
Dizer "seu texto é leviano" virou sinônimo de acusar o blogueiro de "ser leviano". E pra finalizar: melhor não se aprofundar muito (só em alguns casos, não nos blogs "entrenois" e o "politicamente correto", além de outros núcleos têm uma certa dificuldade com aquela figura que decide simplesmente "ser não sendo", isto é, não necessariamente pertencendo a algum tipo de grupo.
Mas.. resumindo mesmo: o triste são os casos (e mais uma vez repito, não é o caso dos blogs que ando lendo) de pessoas que lutam contram a opressão mas são eles mesmos opressores e ao invés de sinceridade, é aquela "ameaça sutil".
Ai, ai.. deixe-me continuar a leitura.
Gi |
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19/05/08 - 4:49 pm | #
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E fecha parênteses depois do "entrenois".
Gi |
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19/05/08 - 4:50 pm | #
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Estou analisando cada parágrafo, lendo com calma. Ei, "você está generalizando". hehehe Bem, mas em todo caso, eu não faço parte daquelas que "se escondem". Minha fisionomia já engana, mas logo mostro a que vim! ) E continua desse jeito, depois de balzaca.
Gi |
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19/05/08 - 4:55 pm | #
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Pois é, Gi, eu tenho notado com algum pesar que tanto as pessoas que se mobilizam por boas causas quanto os que defendem estritamente seus interesses têm se fechado ao diálogo. De sorte que toda contraposição parece lesiva e hostil. Mas ora, a imposição de uma perspectiva e o fechamento do universo da locução não parece uma prática totalitária?
Eu ainda prezo conversas saudáveis com quem se permite reconsiderar o que pensa e ouvir francamente, replicar seguindo o roteiro do diz aquele com quem se conversa. E isso é coisa rara! Mas vamos seguindo, em breve eu talvez escreva sobre isso.
Abraços
Leonardo Bernardes |
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19/05/08 - 6:20 pm | #
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Você deve ter alguns planetas no signo de Gêmeos na sua carta natal. "Adoramos" discutir, ver 1, 10, 1000 lados da mesma questão. Ai, desculpe; não se deve falar de Astrologia a um filósofo. ) Espero que as coisas melhorem por aí.. mas sou pessimista. Abraços
Gi |
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20/05/08 - 12:12 pm | #
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Paradoxal e confuso!
Gi |
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20/05/08 - 12:12 pm | #
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A única experiência que "eu tive" com Hemingway foi no Musée (de cera) Grévin onde ele toma uns "goró" sentado à mesa ao lado de outros escritores famosos, mas gostaria de compartilhar um artigo interessante e me permita até misturar este assunto no seu blog com aquele outro onde conheci seus argumentos.
Enfim, vale a pena a leitura, mas muitas pessoas se chocam com os termos "de cuho preconceituoso". É que devemos escrever "bonito" e "fino" como alguns psy por aí.
ttp://congressoemfoco.ig.com.br/
DetArticulistas.aspx?colunista=22&articulista=466
Com esse artigo (e não o outro, do psicanalista), me deu vontade de "me iniciar" no H. )
Gi |
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20/05/08 - 12:28 pm | #
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Mais um pitaco de continuação: seu texto poderia ter como título "prisões masculinas".. ) Mas como eu não sou feminista...
O "doctor psy" atingiu a masculinidade dos caras, mas o problema maior (na minha opinião) do seu artigo na Folha foi a literatura de Hemingway e as sublimações eróticas serem consideradas "triviais", "procura de sexo na rua" e a polêmica sobre. Mas o C. misturou pra poder agradar, tanto ao público q lê H. como ao "povão", q quer debater o "caso R."
Deixo meu e-mail caso você queira enviar sua resposta e pra poder não misturar tanto os assuntos no seu blog.
Gi |
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20/05/08 - 12:37 pm | #
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Corrigindo: "seu artigo" é "artigo dele", senão fica parecendo regra de gramática de outra língua.
Gi |
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20/05/08 - 12:38 pm | #
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Leo,
Muito me agradou a referência ao MADA, devo doravante recomendá-lo às tantas que, sem escolha, se apaixonam desmedidamente por mim. Brincadeira à parte, o seu texto revela um dado interessante, quando menos: podem até acusá-lo de estar errado, mas não de incoerência. É possível a quem conhece o seu texto advinhar o desfecho de sua narrativa. Esse seu romantismo de cunho naturalista que admite algum cálculo, mas que, no entanto, não deixa de submeter o calculador à falta de controle sobre sua natureza. E, ademais, o amor como um mascaramento operado não por quem se mostra mascarado no momento em que se dissolve a ilusão (a menos que se trate de um amigo nosso cafajeste), mas por quem a produziu. Pelo menos é assim que seu texto narra o começo do enamoramento. Até aí tudo bem. Todavia, se eu entendi bem (para usar um cacoete analítico, você atribui a ilusão à expectativa. Ao que me parece, uma ilusão não é construída pelas expectativas. Não seria a expectativa que "pinta o objeto amado", mas o próprio encantamento inicial. Primeiro, por que uma expectativa parece requerer justificação, a qual o encantamento não permitiria ("amo por que amo"). E, por fim, só em um contexto em que seja possível a justificação ("eu o amei tanto por quê?") é que algo pode se mostrar como uma ilusão. Nesse sentido, a analogia com a religião é interessante. Uma ilusão só se mostra como tal quando vista de uma perspectiva que não aquela que a formou. Porém, já que o que importa é a função que a ilusão cumpre, então uma ilusão não poderia ser meramente substituída por outra? De tal sorte que descobrir-se estranho a quem um dia amou não significa apenas descobrir a pessoa, podendo significar também ver a pessoa a partir de uma outra perspectiva que não aquela inicial? No mínimo curioso, Freud, depois de repetidas cartas à sua noiva sem resposta, escreve-lhe dizendo que não mais lhe escreverá, pois, do contrário, quando eles se encontrassem ela passaria a vê-lo como um estranho. Assim, isso que você diz ser ilusão dissolve-se então quando o laço de reciprocidade é quebrado. E, se é mesmo assim, não se trata de uma ilusão no sentido de engano, já que algo que é condição para o amor, uma construção mútua portanto. Nem sei em que medida essa conclusão trai ou é fiel ao seu texto. Não se trata nem de justaposição, nem de complementação, mas apenas de algumas observações (e já longas, perdoe o excesso)que o seu texto suscitou.
Wagner |
20/05/08 - 1:21 pm | #
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Gi,
Se eu não aceito a Astrologia como ciência, contudo não me surpreendo menos com o modo como o perfil dos geminianos se enquadra nas minhas características. Sim, sou geminiano com ascendente em gêmeos (momento Walter Mercado), mas vamos esquecer isso porque somos pessoas sérias e podemos ser censurados 
O artigo é mesmo muito interessante, eu gostaria de saber escrever assim de modo desprendido, creio que é uma leitura mais cativante. Aliás, o argumento dele me fez lembrar de outro exemplo: O marquês de Sade, o que o psicanalista teria dito dele, pobrezinho? Que imagem ele não faria? Decerto pintaria uma figura avessa a figura real. Eu concordo em número e gênero, as premissas que ele oferece são frágeis, para dizer o mínimo -- mas os fins justificam os meios. Será que ele não estava advogando em causa própria?
Fiquei com vontade de colocar esse artigo no meio dos comentários lá, o que você acha? :D
Leonardo Bernardes |
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20/05/08 - 1:41 pm | #
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Wagner,
Enfim você está mostrando suas asinhas, hein? Pena que André continua reticente. Seria bacana porque a escrita torna os argumentos mais pontuais.
O estágio inicial de uma relação de fato é complexo e, obviamente, minha apresentação é uma redução que produz alguns prejuízos. O encantamento está entre os fatores iniciais mas eu ainda penso que é a expectativa o agente "das ilusões". É a luz da expectativa da durabilidade -- "o amor quer a eternidade" -- que se justificam os adornos, os enfeites, as omissões. Para mim as ficções são indispensáveis e nunca saímos delas, o que diferencia as ilusões é que esse tipo de ficção se quer eterna e só a muito custo é abandona porque ela cumpre uma função homeostática na psique, ela é uma espécie de fundamento, sem o qual ruem aqueles que nela se fiam.
então uma ilusão não poderia ser meramente substituída por outra? Sim, é isso que acontece com as pessoas normalmente, mas se estamos diferenciando ficções cabe-nos atentar para o vocabulário, uma ficção substitui outra. A ilusão, segundo minha exposição, é insubstituível. É preciso lembrar que eu na verdade estou ocupado com um caso bem específico, e não fazendo um tratado sobre o Amor. Duas pessoas que não quiseram abrir mão de suas ilusões consequentemente se reconhecem como estranhos. (os casos "normais" seguem, sim, outro rumo). Não parece comum que os românticos que acreditem no amor eterno, por exemplo, quando confrontadas com problemas reais que obstam essa imagem simplesmente abandonem seus objetos? Ao invés de abandonar a crença, abandonam o objeto de amor, mas não a crença do amor eterno. Há uma diferença entre a dinâmica das ficções que está bem ilustrada no exemplo da religião, embora de modo breve. A diferença entre a ilusão saudável que eu afirmo como parte integrada das nossas experiências e as ilusões é que essas últimas não admitem serem abandonadas, porque desempenham um papel fundamental que não pode ser dispensado sem prejuízo. Há questões de auto-estima e de outros aspectos que eu simplesmente não mencionei para não fazer do comentário um texto psicanalítico, e tal. Preferi contar com a experiência própria dos leitores, quase insinuei o nome WAGNER no texto. haha
Leonardo Bernardes |
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20/05/08 - 2:07 pm | #
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PS. Você notou que eu resumi em uma linha minha objeção a idéia de jogo em Ligações Perigosas? O tempo esclarece as idéia, rapá.
Leonardo Bernardes |
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20/05/08 - 2:10 pm | #
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'Advogando em causa própria' é ótimo. hehe
Leo, quanto ao artigo: pois foi de lá do blog da Lu que peguei! ) Foi alguém que postou um comentário dizendo que não gostou do texto.
Gi |
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20/05/08 - 5:36 pm | #
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A propósito (e sem entrar, evidentemente em pormenores pois vc se cansaria!), eu tenho Meio do céu, Lua e Vênus em Gêmeos, mas no Sol e ascendente são "outros quinhentos". Minha "mania" de analisar e de levar em conta a opinião alheia (mas também surtar vez por outra!) é mais do ascendente em Virgem mesmo e seu regente Mercúrio + posição.
Gi |
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20/05/08 - 5:37 pm | #
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Gi,
Não sabia que o texto vinha de lá, só notei agora. Não gosto do tom arrogante como as pessoas refutam as coisas. Não vi no texto do rapaz nenhuma hostilidade e simplificação que não estivesse simetricamente retratada no próprio texto da Lu sobre o caso e no entanto não desferi nenhuma "besta quadrada" para refutar algumas leituras primárias. Mas fazer o que, né?
Sobre os signos, bem, não abuse do meu parco conhecimento de astrologia. Você quase falou grego! Sei que sou geminiano com ascendente e gêmeos, do tipo que se comunica e que se perde em uma imensidão de interesses e nada mais! Luas e planetas me escapam (acho que meu caso é com Mercúrio, não?)
Leonardo Bernardes |
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20/05/08 - 7:00 pm | #
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Notei a síntese que você fez de Ligações Perigosas, você sabe que tendo a concordar mais com essa leitura, embora não esteja pronto a aceitar todos os consequentes. Alguns deles podem ser abandonados e devem sem que o núcleo seja onerado. Em algum sentido, o que você chama de ficção e qualifica por ilusão é o que em alguns textos Wittgenstein batiza com a expressão "mitologia". Essa "mitologia" depositada em nossa linguagem fornece meios de apresentação da experiência. A partir desses meios de apresentação podemos construir outros modelos, a fim de dar conta de experiências que porventura escapem do escopo disso que são os meios de apresentação. Aparentemente isso não tem relação alguma com os jogos amorosos. Afinal de contas, o que Wittgenstein cuida de analisar é como esses modelos são capazes de subordinar a experiência, estabelecendo-se como essências absolutas, determinantes que, enquanto tais, não deixam de compor uma moldura teórica. De resto, essa mitologia é um fundamento, condição para a descrição. Mais estranha ainda a relação? Não tanto assim, se recordarmos do que diz a Marqueza em Ligações Perigosas a respeito das cartas de amor: escreva o que agrada ao destinatário, não o que você pensa. Afinal, você não escreve para si, mas para ele. É claro que em se tratando de uma carta de amor, o destinatário vem inscrito no discurso, é ele o que é visado. E nem diria que a Marqueza, nessa expressão, conte com algum cáculo que possa ser externo à própria expressão do amor e que o tenha como resultado. Prefiro encantamento a expectativa talvez por isso. O querer que seja eterno não inaugura sozinho uma expectativa, quando menos no sentido de que uma expectativa envolveria planos, mesmo que tácitos. Ao passo que o encantamento corresponde justo à mudez característica desse momento inicial. O amor não se traduz em discurso de modo imediato. E se envolve a elaboração de ficções, é que o amante confere sentido a cada gesto da amada do ponto de vista do que sente. Ou seja, as coisas passam a ter sentido em relação ao amor, ao tempo que é o sentido delas que o alimenta. Aqui, passo a concordar com você: se o ritmo normal tende a desfazer as máscaras, se isso é possível, é que já não esse amor a funcionar como horizonte que confere sentido a cada gesto que isolado nem mesmo seria uma expressão, não passaria de um signo destituído de espírito (ou, como pretende André, sem um sujeito transcendental, não passaria de matéria morta).
Um romântico não abandona a crença na eternidade e simplesmente muda de objeto por não abandonar a ficção. Mas, esse esquema valorativo entre as ficções que lhe permite atribuir o estatuto de saudável a uma em detrimento de outra, esse próprio esquema se pode atribuir valores, não é que determinado por uma ficção segundo a qual isso é saudável e aquilo outro não? O que é que faria com que uma ilusão fosse saudável, por exemplo? O fato de ser parte integrante de nossas experiências, de sorte que uma ilusão de segundo tipo
Wagner |
21/05/08 - 2:14 am | #
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"Ligações Perigosas" é ótimo. )
Gi |
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21/05/08 - 10:33 am | #
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Você concorda com a minha leitura de Ligações Perigosas mas não com algumas consequências? Mas minha leitura só diz respeito a noção de jogo. Não entendi bem essa costura que você fez entre esse aspecto e a idéia de ficção
O querer que seja eterno não inaugura sozinho uma expectativa Bem, quanto a isso o caso é que minha idéia está embrenhada de psicanálise e daí que entendo o desejo como orientado pela necessidade de ser aplacado. Todo movimento psicológico consiste em apaziguar as tensões inauguradas pelo amor -- como não se quer abandonar o objeto, a melhor forma de fazê-lo é eliminando a possibilidade de perdê-lo. Nesse esquema acho justo que o querer inaugure uma expectativa como forma de articular um estado de tensão em níveis mínimos e uma estado de coisas que invariavelmente se opõe a esse desejo.
Mas, esse esquema valorativo entre as ficções que lhe permite atribuir o estatuto de saudável a uma em detrimento de outra, esse próprio esquema se pode atribuir valores, não é que determinado por uma ficção segundo a qual isso é saudável e aquilo outro não? SIM, certamente. Veja o que eu escrevi acima: Para mim as ficções são indispensáveis e nunca saímos delas, o que diferencia as ilusões é que esse tipo de ficção se quer eterna (...) Não vejo problema que essa idéia de salubridade seja também uma ficção, o caso é que ela interessa na medida em que flexibiliza a idéia de ficção e desfaz a IMAGEM que a ilusão quer como verdadeira e irrevogável. Afinal, a norma não é menos objetiva porque é substituível, não?
PS. Não sei se você notou mas seu comentário não foi publicado na íntegra, quando é muito grande às vezes o sistema corta.
Leonardo Bernardes |
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21/05/08 - 12:22 pm | #
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Também não vejo problema que tal idéia seja também uma ficção. Mas, em sua terminologia, ela não poderia ser uma ilusão.
Notei que o comentário foi cortado. Tentarei refazer a parte que foi cortada.
Wagner |
21/05/08 - 2:42 pm | #
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(continuação)...de sorte que uma ilusão do segundo tipo encerra um modo de ver as coisas, mas tamanho o seu peso metafísico, por assim dizer, que ela não se afirma como mero modo de ver as coisas, mas antes como o único possível.
(Retomo depois o restante do comentário)
Wagner |
21/05/08 - 2:48 pm | #
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Acho que as coisas se colocam nesse nível:
1. As ficções são necessárias
2. Sobre elas tudo que podemos dizer é que são "construções" aparentemente indispensáveis pra lidar com o mundo
3. Por que elas se relacionam com o mundo como instrumentos, seu caráter relacional deve ser preservado
4. A fim de manter a operacionalidade desses instrumentos é que se justifica o uso de ficções de níveis superiores que tem seu uso validado apenas pelo propósito de preservar tais instrumentos sem que essa preservação seja uma imposição absoluta, uma vez que outros modos de lidar com o mundo são possíveis.
É evidente que isso não está tematizado no texto porque, como eu disse, a possibilidade de que essa condição possa se alterar não modifica a objetividade que ela produz. Eu estou trabalhando dentro desse quadro no qual aceito como válida a necessidade de ficções fundamentais. Aliás, por isso mesmo eu disse que as ficções se diferenciam apenas por grau e não por natureza.
Leonardo Bernardes |
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21/05/08 - 4:40 pm | #
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No seu comentário, você cuida de fazer duas distinções. A primeira, relativa a dois tipos de ficções: as ficções e as ilusões. Estas se pretendem eternas e é abandonada a muito custo. A última distinção refere-se às ficções saudáveis e às ilusões. Como traço geral das ficções, você as qualifica por aquilo que jamais pode ser dispensável, visto a função que cumprem.
Em nota no seu texto, você faz a distinção entre ficção e interpretação religiosa, qualificando a ficção como saudável por ser constitutiva da experiência comum. E é por isso que ela se diferencia de uma interpretação religiosa. Ao caracterizar as ficções religiosas, você diz delas que dogmáticas, cumpridoras de uma função ideológica tal que nem mesmo levam em conta o seu abandono como possível.
O que caracteriza uma ilusão que não seja saudável é que elas não podem ser abandonadas sem algum prejuízo. Ora, isso entra em choque com o fato de uma ilusão poder ser substituída por outra. Mas, como seu exemplo do romântico ilustra, não é que elas não possam ser abandonadas, sim que a função que elas cumprem é que não pode ser dispensado.
De acordo com as distinções que você faz, pode-se reduzir a distinção em: ficção e ilusão. Sendo que o que você denomina, com clara influência freudiana, de ilusão saudável pode-se enquadrar no que se chama de ficção. Ao que me parece, o traço comum entre ilusão e ficção é justo o fato de ambas contarem com a possibilidade de abandono. Porém, ao passo que uma ficção, porque necessária e constitutiva da experiência, deve ser substituída por outra, uma ilusão não. Uma ilusão pode ser abandonada sem que a substituamos por outra, o contrário ocorre com uma ficção. Em sendo assim, outro traço as distingue. Em uma disputa entre ficções rivais pode-se decidir apenas a partir do conjunto de razões de uma ficção, enquanto em se tratando de uma disputa entre ilusões divergentes (André (o coração de pedra)x Leonardo (romântico fatalista)) as duas ilusões podem ser igualmente dissolvidas, de sorte que não é preciso se servir da perspectiva de uma terceira ilusão para decidir entre uma e outra. Embora uma ilusão, como você mesmo diz, não admita a possibilidade de abandono.
Outros modos de lidar com o mundo são possíveis, no entanto, da perspectiva de uma ficção ela é o único modo possível, não se pensa uma ficção da perspectiva dela mesma como possível. O discurso que relativiza as ficções, e até mesmo o discurso que atribui à ficção própria à religião só pode ser filosófico.
Wagner |
21/05/08 - 6:28 pm | #
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Digo, o discurso que atribui uma função ideológica às ficções (evito o uso ilusão devido a sua carga perjorativa) próprias à religião é também filosófico. Afinal, é do ponto de vista filosófico que as escolhas que constituem uma ficção podem ser tomadas por arbitrárias, no sentido de que poderiam ser outras. E, por conseguinte, a ficção é somente um dentre muitos outros modos possíveis de lidar com o mundo. Assim, do ponto de vista de quem opera subordinado ao peso da ficção ela não é somente possível, é necessária, como você diz.
A aquisição de uma nova ficção possui o caráter de uma conversão religiosa, na medida em que confere novo sentido à experiência. Nesse sentido, o que você qualifica como "ficções religiosas" pode muito bem qualificar toda e qualquer ficção. Ou seja, uma ficção, qualquer que seja, não é flexível.
No entanto, eu não sei se a diferença entre ficção e ilsuão seria somente de grau, já que o emprego que fazemos delas é que as define.
Wagner |
21/05/08 - 6:42 pm | #
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O que caracteriza uma ilusão que não seja saudável é que elas não podem ser abandonadas sem algum prejuízo. Ora, isso entra em choque com o fato de uma ilusão poder ser substituída por outra. Perdão, eu acho que não me dei conta do que você havia me perguntado acima, no primeiro comentário -- ou então estou usando com ambiguidade meu próprio vocabulário. Pois só agora me dei conta de como soava estranho essa sua frase e, no entanto, eu lembrei de ter consentindo com ela.
No primeiro comentário você disse: Porém, já que o que importa é a função que a ilusão cumpre, então uma ilusão não poderia ser meramente substituída por outra? De tal sorte que descobrir-se estranho a quem um dia amou não significa apenas descobrir a pessoa (...) Descobrir-se estranho é já não ter feito a transição de ficções que caracteriza um padrão normal (isto é, a passagem de ficções mais abstratas que custam mais expectativa às mais "reais" e comedidas), ou, no caso de alguém que esteja posto numa ilusão, estancar quando as condições já não se adequam a manutenção da sua ilusão tão cara. Descobri, na verdade, que alguns aspectos eu suprimi ou não esclareci como deveria: é a função ideológica o que determina que uma ilusão vire uma prisão, é quando, por exemplo, a mulher se dispõe a aceitar tudo baseada na ilusão de que assim poderá estar próxima o suficiente para corrigir (ajustar aos seus padrões) seu amado, ou quando, no caso religioso, uma ilusão torna possível a sobrevivência numa situação degradante. As matizes então são inúmeras, há ficções, que formam o lastro e são indispensáveis (embora substituíveis), há ilusões, ficções que não se deixam substituir porque, crendo que elas são estáveis, conquistamos segurança e há as ilusões que, quando instaladas em certas condições, fecham um ciclo que forma a prisão, do qual depende não só a segurança mas a própria estabilidade emocional de quem as cultiva.
Então, até porque há uma parcela de confusão que você me causou quando falou de ilusão saudável, melhor esclarecer algum termos intercambiáveis: ficções e ficções saudáveis são dois termos equivalentes quanto usamos em referência respectiva a ilusões e ficções prejudiciais (ficções/ilusões ou ficções saudáveis/ficções prejudiciais). Portanto não há ilusões saudáveis. O discurso que relativiza não precisa ser um discurso filosófico, aliás, nem precisa tomar a forma de um discuso: quando duas pessoas não se valem de ilusões, o início de um relacionamento e suas ficções originais são abrandadas a medida que o tempo passa, e essa ficções são substituídas por outras, sem que se produza uma ruptura pela incompatibilidade dos novos termos aos esquema inicial, exatamente porque eles se permitem uma flexibilidade. A ilusão é um esquema rígido precisamente porque, se ele se permitisse a contingência de se expõr aos fatores externos, perderia o caráter balsâmico que produz por determinar de fora os seus critérios.
Leonardo Bernardes |
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22/05/08 - 1:35 am | #
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Bem, diante da revisão dos termos que assumi equivocamente, reconsidere seus argumentos pr'eu saber afinal qual é sua crítica (tá vendo que nessas horas é bom ser um estruturalista, fica mais fácil de identificar tudo -- com os wittgenstanianos a gente tem que filtrar meia duzia de componentes, entre elogios, exemplos.. hahaha)
Leonardo Bernardes |
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22/05/08 - 1:36 am | #
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"(...)é a função ideológica o que determina que uma ilusão vire uma prisão, é quando, por exemplo, a mulher se dispõe a aceitar tudo baseada na ilusão de que assim poderá estar próxima o suficiente para corrigir (ajustar aos seus padrões) seu amado, ou quando, no caso religioso, uma ilusão torna possível a sobrevivência numa situação degradante". Talvez a argumentação que ensaiei tenha produzido confusão, dentre outros motivos, por tentar operar uma redução conceitual: desde o início tentei reduzir o que você chama de ficção e ilusão às noções de bild, Weltbild e Weltanschauung (Mythologie). É claro que essas noções não contam com extrações psicológicas que permitiriam, por exemplo, que você atribua a uma ficção o caráter de saudável. No entanto, se poderia relacionar isso com a idéia de dogmatismo que sempre acompanha a mitologia encerrada no uso da linguagem e que, portanto, determina o discurso teórico, no sentido de que fornece modelos de descrição.
Isto posto, o que eu havia entendido é que a função exercida por uma ficção é que não pode ser abandonada, no sentido de que ela é impreterível, não a ficção nela mesa - reitero - mas a função que ela exerce. No entanto, isto parece se aplicar também ao caso das ilusões, visto a função ideológica que elas cumprem. Pode-se dizer então que, ao passo que uma ilusão pinta a realidade com outras cores a ponto de impedir o acesso à realidade mesma (visto o seu caráter balsâmico), uma ficção desenha o que seja a realidade objetiva?
Como o seu próprio texto parece indicar, quando em gesto caridoso, faz uma concessão ao gênero feminino ("eu já fui vítima desse ardil"), seu discurso poderia substituir o feminino por "amante". Ademais, a sua síntese a respeito de Valmont corrobora essa substituição. Mas não sei se o seu arsenal psicanaílitco a permitiria. Arrisco dizer que seja por isso que você deve recusar a revisão terminológica que eu propus: o que de psicanalítico tem o seu discurso.
"há ficções, que formam o lastro e são indispensáveis (embora substituíveis), há ilusões, ficções que não se deixam substituir porque, crendo que elas são estáveis, conquistamos segurança e há as ilusões que, quando instaladas em certas condições, fecham um ciclo que forma a prisão, do qual depende não só a segurança mas a própria estabilidade emocional de quem as cultiva". A essas ficções estáveis relacionei a noção de imagem de mundo, enquanto ao que você chama de "ilusões", como tais capazes de aprisionar, relacionei a idéia de mitologia, visão de mundo, que concede estabilidade ao discurso teórico. Já que subordinado a conteúdos psicológicos, você as coloca como condição da "estabilidade emocional de quem as cultiva". Aplicado isso ao discurso amoroso, desde que substituída devidamente a expressão "feminino" por "amante", estou propenso a concordar. Porém, se aplicado às religiões, à função ideológica que uma interpretação religiosa cumpriria, tendo a discordar. Pois, uma ilusão, nesse sentido, pare
Wagner |
22/05/08 - 4:36 pm | #
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(Continuação)Pois, uma ilusão, nesse sentido, parece conformar a idéia de afastamento da realidade, como um ardil capaz de tornar aprazível o que é doloroso, daí o caráter balsâmico. É inegável, pelo que me parece, que as ficções religiosas enformar um modo peculiar de ver as coisas, de enfrentar a realidade e so und so. Porém, uma interpretação religiosa assim corresponderia a uma religiosidade inautêntica, já que uma ficção religiosa não cumpre o papel de desenhar uma relidade mais aparazível aos olhos, mais suportável, mas antes cumpre o papel de redenção da realidade. E se é mesmo assim, se redime a realidade, uma ficção religiosa não pode prescindir da realidade, ainda que corresponda a uma invenção da realidade. Talvez prisão sim, mas não no sentido de que funcionam como impeditivo de que o religioso enfrente a realidade. Acho até que essa perspectiva é mais justa por não por o religiosa na condição de quem busca nas religião um mero bálsamo.
De resto, continuo achando que é próprio do discurso filosófico a relativização, senão da ilusões, das ficções, já que elas constituem a objetividade sem a qual o discurso não se constituiria, as suas bases ruiriam. Entendendo que o discurso filosófico consiste em mostrar que isso que é tomado como necessário está também exposto ao contigente fluxo das coisas. Mas essa é uma outra questão que depende de eu ter entendido o último parágrafo de seu comentário. Vamos por partes. Adiantando, me parece que estou utilizando a idéia de relativização em outro sentido que não aquele que você emprega. A relativização, tal como você a emprega, implica a substituição. Ou seja, não se trata da perspectiva filosófica. Ao tempo que a relativização operada pela filosofia não implica substituição, mas antes da descrição dos modos como operamos e, por conseguinte, a constatação de que ficções quando desmorona, por não dar conta satisfatoriamente de certos fatos, devem ser substituídas por outras, ainda que não necessariamente. Em outros termos, o discurso filosófico assume uma perspectiva transcendental, por isso pode se arvorar em mostrar o quanto frágil aquilo que assumimos sem questionar, simplesmente adquirimos cegamente, enquanto, do pondo de vista de quem se vê subordinado por uma ficção, não é possível lhe atribuir o caráter de contigente. É claro que a rigidez de uma ilsuão é bem maior, como você conclui. Assim, como não se tratria de uma escolha subordianr a relação a esta ou aquela ficção.
Wagner |
22/05/08 - 4:37 pm | #
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Isto posto, o que eu havia entendido é que a função exercida por uma ficção é que não pode ser abandonada, no sentido de que ela é impreterível, não a ficção nela mesa - reitero - mas a função que ela exerce. No entanto, isto parece se aplicar também ao caso das ilusões, visto a função ideológica que elas cumprem. Pode-se dizer então que, ao passo que uma ilusão pinta a realidade com outras cores a ponto de impedir o acesso à realidade mesma (visto o seu caráter balsâmico), uma ficção desenha o que seja a realidade objetiva? Na verdade ambas podem ser abandonadas. O que carateriza, ou melhor, o que distingue uma da outra é o modo como lidamos com elas, as ficções se permitem ser abandonadas (de modo relativamente fácil) enquanto as ilusões impõem um preço quase impagável. É claro que há questões de alcance, não é por nada que uma ilusão tem esse caráter, ao perfazer a intergridade de uma Weltbild, sua supressão implica um movimento estrutural enorme.. a esse movimento sempre se interpõe uma fase lacônica onde a falta de fundamento é terrível. As ficções não costumam ter esse caráter -- então há uma questão de fundo que eu suprimi: a ilusão é quase sempre uma exigência de quem não pode lidar com a contingência, por isso ele se manifesta nos casos em que as situações degradantes imperam.
Acho, então, que encontrei dois pontos obscuros, com os quais já conto, claro -- contudo que não podem permanecer na obscuridade nessa discussão sobre religião: 1. Em relação a minha posição, o que me faz caraterizar como não-saudável a postura religiosa é que ao se afastar do mundo ela lhe dá consentimento, ou seja, ela se afasta de qualquer possibilidade de busca material de transformação. Aliás, por isso eu disse que o primeiro movimento pra mudar o mundo é sempre interior***. Esse aspecto é mais importante no caso religioso porque ele tem conotação política 2. Esse ponto lhe diz respeito: essa inautenticidade que você caracteriza, de onde vem o padrão de autenticidade que ela requer? Quer dizer, você o expôr, mas o que faz dele preferível? Ora, o que mais adoro em O grande inquisitor de Dostoievski não é a reprimenda feita Jesus por não ter erguido seu império sobre o poder ou invés da fé? Você, de algum modo, afirma que a religião é erguida pela fé.. é como se você fosse o Popper dos religiosos. haha
Bem, a relativização que eu menciono não implica substituição, ela a permite. O que é diferente. A ficção comporta alguma idealização, mas ela não é abstrata como a ilusão, por isso ela comporta substituição. A ilusão lida com mundo apenas no terreno do subjetivo -- porque ela quase sempre é implicada por condições materiais incontornáveis (opressão de organizações políticas e sociais, carências de recursos materiais, ou a falta de amor patente que precisa ser mascarada num estágio temporário reversível)
*** Esse é na verdade o aspecto mais importante da minha idéia, por ele implica um modo de lidar com o mundo: uma passividade ou uma atividade
Leonardo Bernardes |
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22/05/08 - 11:09 pm | #
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Mas ó, quem está subordinado a uma ficção não necessariamente não admite como contingente.. sobretudo nos casos amorosos. Se a idealização projeta e prepara o caminho para o hábito, que é o verdadeiro artesão do amor, ela também cumpre seu papel com independência. No entanto a figura forjada no início é logo substituída pela imagem real, sem que a ruptura seja necessária. Claro, as mulheres costumam nos cobrar aquela imagem inicial SEMPRE, você sabe. Mas é exatamente porque ela já está instala em outro domínio que não mais aquele.
Ah, sobre o seu "amante", claro que eu permito essa conversão, aliás, como eu afirmei, o que me coube nesse relato era apenas a impressão de que ele ocorre com mais frequência entre mulheres.
Leonardo Bernardes |
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22/05/08 - 11:17 pm | #
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Como é que ficções, que são necessárias, que estruturam a experiência, podem ser abandonadas de modo fácil? Ora, já que a ilusão é quase sempre uma exigência de quem não pode lidar com a contingência, então se constitui como delírio. O amante é assim um sonhador que se permite aproximar mito e realidade. Esse delírio se carcateriza então por performar um véu de ilusão a partir do que se crê que o mito criado é a realidade. Desapegar-se desse mito, mesmo que já pretérito, é como abandonar a realidade mesma (a realidade que o mito inventou). Alguém portanto que seja capaz de jogar, de fingir, é porque não delira. Um caso típico desse delírio é o de Werther: Werther sabe que Carlota não lhe pertence, afinal quando ele a conhece e se deslumbra com ela, ele sabe que ela está prometida a Alberto. Isto, porém, não o impede de sofrer. Esse saber de Werther não o impede de se sentir Carlota sendo roubada dele ao vê-la colhida pelas mãos de Alberto. O delírio, nesse sentido, consiste em criar uma imagem da pessoa amada, mas não uma imagem que possa ser representação perspícua do real, mas antes uma imagem que passe a figurar com a realidade mesma. Volmont, pode-se dizer, aproxima-se demais da imagem que tem sob os olhos, e já não pode mais fingir, uma vez que passa à condição de amante.
A minha pergunta inicial, embora ingênua, tem a ver com o meu estranhamento em relação a uma certa secreção psicológica que povoa as suas conclusões. Ao que parece, o que permite que uma ficção seja dita fácil de abandonar é o poder dessa força psicológica à qual tocaria um decisão desse gênero. Esse tribunal da psique que você inventa cumpre o papel da razão para positivista - não que suas conclusões não tenham um sabor positivista, no sentido de que qualificam como ilusão certos traços metafísicos. Afinal, se delirante o gesto de um amante é que fora do espaço coberto pela sua razão, irracional portanto.
Mais do que de uma força psicológica a cndição de amante depende uma estrutura. O que permite, por exemplo, que um amante possa se identificar com quem outros amantes desesperados não é a força psicológica dos sentimentos que o devoram, mas uma operação estrutural (para empregar uma expressão de Barthes). Ou seja: o lugar ocupado por um amante pode ser ocupado por qualquer um que ame. Nessa medida, a violência com que que a imagem se impõe não pode ser psicológica, mas é claro que há sim um traço psicológico que é justo o que permite que eu distinga o meu lugar de qualquer outro que ame. Tanto é assim que pouco importa o que se sabe, pouco importa a Werther saber que Carlota estava desde sempre prometida a ALberto, o que lhe importa é o que lhe produz a dor de não tê-la, e a sua dor apenas tem sentido em relação a imagem estruturante de sua relação com Carlota, que lhe permite, por exemplo, sentir-se roubado por aquele a quem , legitimamente, pertence a mulher que ele ama. E nada que ele passe a saber pode contradizer a imagem, no sentido de que ela só pode ser desfeit
Wagner |
24/05/08 - 4:17 pm | #
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(continuação) E nada que ele passe a saber pode contradizer a imagem, no sentido de que ela só pode ser desfeita de dentro, só o que é visto tem a força de desmanchar a visão que a imagem performa. Por esta perspectiva, parece não ter sentido em falar de "imagem real", pois uma imagem, qualquer que seja alimenta a pretensão de realidade e só cumpre bem o seu papel quando plasticamente real, ou seja, quando a realidade passa a ser aquilo que a imagem mostra ser a realidade. Todavia, parece que o seu crítério depende novamente daquela secreção psicológica: decidir pelo quanto uma imagem é real ou é produto de um delírio depende de um critério psicológico. É nesse sentido que o movimento para mudar o mundo é sempre interior, mas quanto a esse ponto retomamos depois, porque envolve o seu modo de conceber as religiões e resolvi tratar desse ponto à parte, para não me alongar tanto. Por sinal, um certo leitor já reclama da extensão desse nosso debate. Aquele leitor que se diz alérgico a blogs, um descarado.
Wagner |
24/05/08 - 4:17 pm | #
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A sua posição sobre a religião coloca o religioso na mesma categoria do amante, no sentido de que ambos assumem o mundo como um rival. Claro que a rivalidade ocorre em virtude de razões distintas. O amante compreende o mundo como rival por entender que o mundo é o lugar da partilha (e, como o amor implica posse, dizem alguns), enquanto o religioso o entende como rival pelo fato de tanto mais perfeita a sua ilusão mais distante disso que é a realidade. A ilusão que caracterizaria a religião se vale do distancimento da realidade, repugna a realidade, ao tempo que o delírio característico do amante se vale da proximidade entre mito e realidade.
Mas por quê que uma religião passa a ser caracterizada como um delírio ao se desfazer da busca por tranformação material? Poderia até dizer que a religiosidade é indiferente à busca de tranformação do mundo. A fé, já que compreendida como aquilo que confere sentido às coias, pode conceder um sentido à busca pela transformação. Uma fé autêntica parte do enfrentamento da realidade, não se desvia dela, ademais nasce da necessidade de redenção da realidade. È nesse sentido que Wittgenstein diz que o cristianismo não é uma doutrina sobre o destino da alma humana, mas encerra o modo de viver próprio. E só um homem que se entenda como necessitado de redenção torna-se religioso. A essa capacidade de fugir da realidade é que corresponde a inautenticidade,e uma religião assim que se carcaterize por fugir da realidade não passaria de uma superstição. A religião, por esta perspectiva, não deixa de possuir um caráter balsâmico, mas não no sentido de que atenua o sofrimento, pelo contrário, ao inaugurar um novo modo de ver as coisas, permite que o sofrimento seja enfrentado, não que se desvie dele.
O eventual uso feito das instituições que cuidam da religião é que podem ser criticados conforme a sua perspectiva, mas ainda assim com aglumas ressalvas. Afinal, teria cautela ao atribuir certas coisas às religiões, no sentido de não imputar aos líderes religiosos a função de deuses capazes de fazer certas manobras ardilosas e de modo calculado. Mas, não entendi em que sentido eu sou o Popper dos religiosos...
Wagner |
24/05/08 - 4:49 pm | #
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Como é que ficções, que são necessárias, que estruturam a experiência, podem ser abandonadas de modo fácil? Abandonar uma ficção não significa deixar o lugar vazio, mas substitui-la por alguma menos abstrata. Veja o que eu escrevi sobre as vicissitudes das ficções: A ficção comporta alguma idealização, mas ela não é abstrata como a ilusão, por isso ela comporta substituição. O tempo desfaz as abstrações que originalmente são como estratégias de manutenção. No início a abstração une, prometendo a realização de nossos ideias, depois, quando o tempo depõe as máscaras, as ficções são substituídas por outras menos abstratas e hábito, então, já fez seu trabalho (portanto as idealizações podem ser postas de lado como fatores de manutenção). As ficções -- entendendo conforme esclareci no meu vocabulário, que essas são ficções saudáveis -- são necessárias mas podem ser abandonadas e são, mas abandonadas por outras de graus diferentes. Lembre-se que as distingui por graus, aqui, acrescento, graus de abstração.
Delírio não é uma palavra adequada porque abstrai o caráter volitivo da ilusão -- ou pelo menos relativamente volitivo. Retira-se, desse modo, o ônus por uma escolha compensatória, para depositá-la na conta de um encadeamento somático. Delírio não cabe. Para mim, Werther, nem de longe é um caso ilustrativo de delírio ou ilusão e por isso nem se presta a esclarecer o que estamos debatendo, ao contrário, confunde.. mas isso a gente discute pessoalmente, para que André não nos consuma em fogo e enxofre.
Bem, quanto a "imagem real", não é disso que se trata. A objetividade do meu conceito não depende de se reconhecer UMA realidade, mas de se reconhecer uma composição, um complexo, ou o que quer que possa se chamar assim realidade e quantas elas forem, ela é uma elaboração de aspectos externos e "internos", por assim dizer. Se pudéssemos colocar as coisas nesse patamar: diríamos que aspectos externos causam uma impressão, isto é, é alguma coisa no mundo que amamos, odiamos, etc. Quando tratamos essa coisa, esse objeto, como pura elaboração mental, quando lidamos com ele apenas pela configuração das nossas próprias idéias, sem considerar a possibilidade de um dinâmica própria dos objetos, aí sim estamos instalados num ilusão. Pois aí toda nova configuração, toda nova perspectiva depende exclusivamente de movimentos subjetivos -- assim nos livramos das contingências externas. Isso é a religião, a completa abstração dos aspectos externos (claro, isso é uma generalização). Eu não preciso afirmar uma realidade, a maneira dos positistas, mas apenas afirmar que as nossas experiências NÃO são frutos exclusivos da nossa atividade racional e que, portanto, é preciso considerar a possibilidade de uma dinâmica própria aos objetos que pode escapar ao nosso controle. E ilusão é uma estratégia para escapar a essa constatação e as suas consequências.
Leonardo Bernardes |
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26/05/08 - 4:17 pm | #
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Eu entendi desde o início a sua distinção entre autêntico e inautêntico e acredito que deveria ser assim. A minha pergunta é simples: o que nos constrange a não poder inverter os papéis? A dizer que o que você agora entende como autêntico é na verdade o inautêntico? A experiência comum, é uma impressão minha, ilustra mais casos de inautenticidade do que de aunteticidade, seja nas instituicções -- nas quais eu NEM COGITO a possibilidade de serem classificadas como autênticas -- seja nas manifestações individuais e isoladas. É exatamente nesse sentindo em que te chamei do Popper dos religiosos, porque ele faz um belo exame do que deve ser o critério de demarcação da ciência (na forma mais primitiva do seu falsificacionismo, claro) sem considerar que os cientistas fazem examente o oposto do que ele diz: recusam-se fervorosamente a falsificar suas teorias mesmo diante das anomalias mais patentes. Nesse sentindo, dizem, ele fez uma "ética" da pesquisa científica mais do que uma "lógica". Se a autenticidade é uma norma que você oferece, é um ética religiosa, tudo bem, eu aceito e subscrevo, mas essa não é a experiência religiosa na história, não é o caso a que me reporto no post, por exemplo. Não é o relato de Dostoievski em O grande inquisitor.
Leonardo Bernardes |
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26/05/08 - 4:19 pm | #
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Não desisti de nossa discussão, como você sabe. De qualquer forma, como a deixei de lado, para pensá-la melhor e economizar palavras, ontem fui atropelado pelo tema no qual ela parou: "O segredo de toda essa ilusão - diz Emerson em "Experiência" - está na necessidade de uma sucessão de estados de espírito ou de objetos." Para Emerson, é o nosso amor pelo real que faz com que produzamos imagens que não passam de ilusões. A idéia de Emerson, inclusive, me fez lembrar aquela sua exposta a partir de Goethe a respeito da sucessão de dias felizes. De resto, comento depois.
Wagner |
30/05/08 - 11:07 pm | #
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Concordo! É o nosso amor, como projeção de nossas expectativas e ideais, que faz com que produzamos imagens.. mas nem todas são ilusões. Embora, no estágio inicial, sim, grande parte dessas imagens se constitua de material arbitrariamente elaborado -- isto é, elaborado a revelia das condições materiais.
Aguardo entón!
Leonardo Bernardes |
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31/05/08 - 12:02 pm | #
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Leo, já que você indicou, eu escrevi. Agora é ter divina paciência com meus laços compridos
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Se você me permite analisar um pouco e te cutucar um pouco... Apesar de não ter entendido a importância do argumento na construção do texto... Sobre que a mudança do mundo nunca passa pela transformação das condições materiais. Não creio que concorde com isso. Talvez somente um hegeliano concorde (não sei, precisaria ler o pobre do Hegel a sério, ao invés de me apoiar nos fragmentos da minha educação de socióloga). Pegue Webber, por exemplo (ou mesmo Marx – nota: 1).
P.S: Se você só se expressou apressadamente e isso é arroz com feijão procê, então pule sem dó para o parágrafo que começa assim: Já que remetemos às “entidades”... (o próximo parágrafo)
Flavia |
22/02/09 - 4:57 pm | #
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Mas tomemos Webber, só por que gosto dele. Quando o mundo das idéias – seja pela via da conversão religiosa, seja pelos comerciais de TV, de que o Weber absolutamente nem falou, o safado - conseguem se consubstanciar em forma de ação, podemos dizer que temos uma ética (uma maneira de atuar no mundo que tem por parâmetros tanto o que é possível fazer neste mundo cruel, quanto os valores que estão na psicologia do sujeito da ação). Quando a ação se dá numa esfera econômica (nota: 2) então dizemos: ação econômica. O mesmo para ética. (nota: 3). Em outras partes dos escritos do cara você encontrará argumentos razoáveis para dizer que a conversão de valores tem a ver com interesses - materiais. Na introdução, escrita por Gerth e Wright Mills, em Ensaios de Sociologia, Zahar, 1974, os autores dizem que Weber tenta incorporar tanto Marx quanto Nietsche, mas opõe-se a conceber as idéias como meros reflexos - seja de interesses psíquicos, seja de interesses materiais, procurando pensar em esferas - intelectuais, religiosas, políticas, econômicas - com ”entidades" (que é claro, são abstrações e generalizações) que tem evoluções distintas. E ai ele torna mais complexo o que pareceria mais simples. Ele relaciona as idéias e os interesses (que tem muitas vezes um aspecto material) não por meio da noção de “reflexo” ou de “correspondência”, mas pela idéia de afinidades eletivas: para ele não há uma relação direta entre os aspectos materiais (como interesses materiais e origem social) com o conteúdo das idéias. Das idéias expressas por uma liderança carismática (líder religioso, político, cientista, filósofo, sociólogo da moda, propaganda de Coca-Cola) o seguidor seleciona as características da idéia com que têm afinidades. Com o tempo, idéias são descartadas ou mantidas, na medida em que sejam capazes de apontar para condutas – ações – que são favoráveis aos interesses desse povo, ou de uma camada poderosa dele. É por ai que o sujeito conecta ideal e material, e eu acho que é razoavelmente sofisticado. Mas não que eu goste de “sofisticar” o que é simples. É só que eu tendo a concordar que não é simples.
Flavia |
22/02/09 - 4:58 pm | #
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Notas:
1. Marx é as vezes visto como alguém que teria a visão contrária - de que só as condições materiais mudam o mundo. Isto não me parece verdadeiro, pois apesar de analisar mais longamente os fenômenos materiais, não deixa os fenômenos espirituais absolutamente relegados à inexistência, pelo contrário, eles são pressupostos da análise: vide a noção dele de ideologia, e - o meu preferido, amo, amo de paixão - o primeiro capítulo do capital, na idéia de fetiche, ou seja, como o ser humano transformou algo que não tem valor em si em algo que é medida de todos os valores e que acaba tendo mais valor do que tudo – seja o dinheiro ou o dígito bancário, tanto faz - e como ele, no mesmo processo transformou a si mesmo de agente em passivo (paciente?), ao transformar aquilo sobre o qual ele age - a mercadoria, e no final a mercadoria que é equivalente geral: o dinheiro - em agente, chamado pseudo-agente, ao qual ele imagina se subordinar. Ilusão, pois o homem se subordina de fato, mas não ao dinheiro – ou ao sistema econômico que existe como um ser abstrato - mas a outros homens. Essa é a dominação no que ela tem de material.
2. se diz que uma ação se dá na “esfera” (termo quase místico este, não?) econômica está a se usar um palavreado para economizar uma frase desconjuntada do tipo: que a ação tem motivos econômicos como impulsos principais. Nenhuma, ou talvez quase nenhuma, ação é pura: ela só é analisada COMO SE FOSSE pura quando o analista tem um vetor de análise que o leva a fazê-lo ou quando ele tem motivos para supor que aquele vetor é, ou seria, o principal fator capaz de fazê-lo compreender a ação, ou seja, o tipo puro somente existe enquanto abstração que auxilia a análise.
3. O Weber é difícil de domesticar: tanto no sentido de entender seus conceitos, quanto no sentido de localizar, como de indicar em que capítulo e que linha é possível encontrar uma “definição” (se vc procurar irá encontrar “definições” sob o título de tipo puro de dominação isto, conceito de ação aquilo... mas na verdade verá que são todos tipos puros recortados segundo uma pergunta específica, e portanto não servem para responder outras perguntas surgidas de outras problematizações. Essa forma de pensar se encontra espalhada por seus escritos.
Flavia |
22/02/09 - 5:00 pm | #
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Já que remetemos às “entidades” com as quais nosso pensamento se vira: São todas entidades “as esferas”, “a ideologia”, “a história” (nenhuma história acontece do mesmo jeito com todo mundo – o que se faz é generalizar pra poder analisar. A entidade 'Tempo", por exemplo... Voltarei a isso.
Bom, vamos à desconstrução nua e crua:
Não creio na generalização de que as mulheres lutam fervorosamente para não se livrar da imagem original do homem. Já soube de histórias inversas com homens. A diferença é de que, devido a uma tradição de colaboração intergênero e competição extragênero, as histórias das mulheres (principalmente quando são elas o carrasco) são contadas a outras mulheres, o que dá a essa mulher um certo status frente às outras. As histórias de mulheres (sendo elas vítimas) são de preferência contadas a uma ou duas confidentes (não ao grupo inteiro de mulheres, pois isto a rebaixaria no grupo) e quem sabe a um confidente, para que ele tenha dózinha dela (nota 4). Em outras palavras, um homem, quando ouvir uma história de rompimento vinda de uma mulher – se ouvir de todo – vai ouvir o conto da vítima. Da parte da mulher como ouvinte: só ouvi estórias de vítima de homens em uma situação específica de lobo sob pele de cordeiro: o homem é casado, ou tem uma relação fixa. Ele me conta como a mulher dele é má com ele na esperança que eu me enterneça e vire sua amante (aprendi com Nietsche a nunca confiar na vítima total). Entre homens: a manutenção do status intergênero os previne de contar as histórias em que eles foram usados feito tampão e jogados no ralo: esse é um tipo de história que a mulher nunca ouve de um homem, e que um homem só ouve de outro em condições chamadas comumente de "porre homérico"). Mas façamos um exercício com a nossa imaginação: Se eu, mulher, só ouço confissões de um certo tipo de estória de outras mulheres, é possível ter como hipótese que aquele tipo de coisa só ocorra com mulheres. Mas também se deve trabalhar com a hipótese – tão boa quanto a primeira – de que códigos de conduta muito anteriores à minha amizade – por mais honesta que seja – os previna de contar suas histórias, ou pelo menos, de contá-las dessa maneira, ou seja, a história do tampão vai ser reinterpretada para mim como se tivesse sido um comum acordo, e como se isso não tivesse importância. No caso, como mulher, eu provavelmente só ouvirei isso passado por mais um filtro: o de um amigo do cara.
Flavia |
22/02/09 - 5:01 pm | #
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Nota:
4. Isso é uma generalização de certos tipos de comportamentos. Pessoalmente eu fico horrorizada com esse comportamento: como fiquei, num dia em que foram se sentando mulheres à minha mesa no café da faculdade e elas começaram a falar dos seus respectivos – o conteúdo das conversas, que, honestamente, eu só conversaria com uma amiga, ou mesmo com um amigo, como confidente, e só no caso da coisa em si se constituir num problema que eu tentei resolver sozinha muitas vezes antes de compartilhá-lo com essa pessoa para que ela me dê um conselho e somente porque eu creio que a pessoa seja capaz de dá-lo - o conteúdo dessa conversa era como que botado à mesa, como petisco de uma conversa saborosa. Isso foi, para mim, um choque, à época. Acho que posso dizer que não tenho amizades e por sua vez relações amorosas que se constituem, ou não tão fortemente, talvez, nesse padrão competição intergênero e cooperação intragênero. Prefiro não fazer parte do ciclo de subordinações, por isso todas as conversas que ouvi contadas nesse tom foi quando fui identificada por outros erroneamente como mais uma pessoa que compartilha dessa ética... at a first contact situation, diria eu, como boa treker que sou.... sou mais do tipo: live long and prosper... Como só tenho amizades com pessoas mais ou menos assim como eu, eu preciso lembrar dessas situações e da minha sociologia aprendida, para entender que nem todo mundo é assim. No, entanto, o fato dos meus amigos não serem pessoas desse tipo – você sabe, ética é importante na escolha de amigos, em outras palavras, é impossível ser amigo de uma pessoa que você vê com horror - então devo também concluir que a ética da subordinação não é a única presente neste mercado de almas.
Flavia |
22/02/09 - 5:03 pm | #
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Agora vamos a uma re-construção emocionalmente positiva:
As pessoas mudam? Minha resposta é que sim, pois as pessoas são apenas pessoas, não monstros. O que direi a seguir não é receita. Aprendi tanto como amante quanto como professora que não existem receitas para lidar com pessoas.
Do ponto de vista da professora, há uma inundação de discursos acerca do novo método (depois de alguns anos de profissão é comum ver que os seus colegas fazem misancenes, como se estivessem escutando tudo o que um coordenador pedagógico ou um profissional mandado pelas editoras diz sobre o novo método lindo lindo, mas não se iluda: ao virar as costas eles olham uns pros outros no café, viram os olhos pra cima e dizem que é tudo o mesmo papo e na prática o que fazem é continuar usando o método que cada um deles elegeu, a partir de sua experiência, ser o melhor, apenas o adaptando ao novo livro. É uma pena, porque eles deixam de aprender e de refletir o próprio trabalho por não conseguirem filtrar algo de válido entre as linhas do receitão que eles sabem, por experiência, que não funciona. O problema é que não se reflete a partir de experiências sem sucesso: o comum é jogar tudo no lixo – assim é, para muitos, com casos amorosos. Porque o receitão não funciona? Por várias rasões, mas a mais fundamental é que não estamos a fazer um bolo, mas a lidar com o ser humano, e o ser humano tem uma característica que vou primeiro ilustrar e depois dizer qual eu acho que é.
Flavia |
22/02/09 - 5:04 pm | #
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Estorinha em estilo telegráfico: o professor querer alcançar sucesso com todos alunos. Ele acaba virando carrasco e entrando numa relação sado-masô: tenta obrigar todos alunos a fazer o que, ele crê, funciona (seja em forma de lição de casa, de exercício em sala...). O instrumento de tortura dele - a nota. Como ele sabe que para avançar os alunos precisam de exercícios freqüentes, vão surgindo várias atividades que valem nota e o boletim fica uma colcha de retalhos ridícula, cheia de notas que valem uma porcentagem pequena da nota total. A escola mesma às vezes sugere que assim se faça, pois tanto o diretor como os membros das reuniões são professores. Na prática aqueles alunos que só se preocupam com a nota final (que são os mesmos em geral que a escola deseja influenciar) acabam percebendo que as atividades extra valem uma porcentagem mínima da nota final, então “não cooperam”. Do ponto de vista da escola, como instituição, isso ocorre por que não é possível retirar a autoridade das duas provas semestrais. Do ponto de vista da relação entre alunos e mestre, vira SM, pois o professor se comporta como quem está sempre pronto a pegar o aluno de surpresa na próxima esquina. Do ponto de vista do aluno vira uma corrida de obstáculos. What a zoo! (Que circo!) Nem professores nem coordenação tentam fazer um balanço entre antes e depois pra ver se a estratégia realmente funciona por que eles acreditam que funciona.
Flavia |
22/02/09 - 5:05 pm | #
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O que eu creio que eles deixam de compreender foi também pra mim uma incógnita por um bom tempo: porque um aluno se matricula para aprender inglês, paga um curso caro, e não se esforça em se mover nesse sentido? (assim como é difícil compreender por que uma pessoa busca amor e faz subordinação, o que desumaniza o outro, que nesse estado não é possível de ser amado)
Uma das razões é a mística que existe em relação aos “métodos” e que alcançam esses alunos mais ou menos na fórmula: “a escola vai fazer isso por você”, transformando-os em agentes passivos diante do próprio aprendizado e desresponsabilizando-o do processo. A questão do método é uma questão de fé para o professor, que tendo a enxergar seus sucessos como sucesso de sua atuação no método e, contraditoriamente, a imputar os fracassos aos alunos. Algo de errado? (No paralelo amoroso usa-se a estratégia errada acreditando que ela representará sucesso)
Flavia |
22/02/09 - 5:06 pm | #
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Tendo compreendido por que razões que a estratégia SM acima não funciona, hoje em dia, se eu não fosse atéia, daria graças a deus que não funciona. Pois o ser humano faz escolhas, tem livre arbítrio (ou eu quero acreditar que sim, e isso me deixa feliz da vida mesmo frente ao insucesso, mesmo quando sinto vontade de arrancar as cabeçinhas de um por um dos meus alunos quando eles não fazem o que eu espero). Forçar as pessoas a cooperarem com a sua estratégia não funciona com parte das pessoas por que elas (todas) podem escolher “cooperar” ou não, e também por que apesar de você estar contando uma mentira pra eles e para si mesmo quando multiplica as avaliações, os mais espertos percebem por entre do véu de terror que você é um leão sem dentes. Não é lindo? Que o ser humano tenha essas capacidades? Que não seja aterrorizado tão facilmente? Não é fundamentalmente algo que te faz acreditar na potencialidade que o ser humano ainda conserva de se rebelar contra o stablishment? (não sei se dou uma risada maquiavélica ou se choro de emoção). Foucault já teve muito a dizer acerca disso. Claro que encontrei maneiras muito mais saudáveis de lidar com a situação do aluno que não estuda.
E no terreno do afeto? Há maneiras, mas não há receita. É preciso saber onde se quer chegar. Muitas pessoas acabam optando por maneiras de subordinar os outros, por relações de poder, por meio da fascinação. Mas muitas delas (ou talvez todas) se tornam infelizes quando fascinam sem ser fascinados, pois o que realmente se deseja é ser fascinado sem ser subordinado. Na estratégia acima essa é uma contradição em termos. Na estratégia acima a entidade “Tempo” poderia ser entendida como o número de tentativas e insucessos que é necessário para que uma pessoa desista.
Flavia |
22/02/09 - 5:06 pm | #
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Porque alimentar ilusões? Já que já temos idade e experiência o bastante para saber onde essa história vai parar? Todo o jogo de ilusões não é só para o outro, mas uma mentira para si mesmo, você já se perguntou porque o jogo de fascinar é tão fascinante? Será por que – por algum tempo, ao menos – nos sentimos como se fôssemos aquele super-homem ou a mulher gato que criamos. Isso significa também uma frustração com o que somos, um complexo de inferioridade que, como dizia Freud, tem como efeito tanto a megalomania quanto à paranóia (são duas faces da mesma moeda – Freud ligava isso ao desejo homossexual reprimido, mas eu acho que fazia mais sentido pra época dele e para a origem social dos pacientes dele – acho que pode ser facilmente adaptado ao caso do prazer pela fascinação). Um namorado que tive me ensinou uma coisa ótima: “Se alguém pode chutar o pau da tua barraca, então vai lá e chuta você primeiro”. Não fiquei fascinada por ele, mas desde então o admiro profundamente, o que é outra coisa.
Flavia |
22/02/09 - 5:07 pm | #
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Que tal outra estratégia escrito em estilo de conselho sentimental a quem quer que precise: Eu diria: entregue-se de corpo e alma, mas não de forma ingênua: aproveite os conselhos de Jane Austeen e faça com que o seu “sense” (tradução livre: razão, sensatez) estabeleça parâmetros ao seu “sensibility” (a sensibilidade, emoção). Ou seja, saiba ver, como os alunos espertos, por através do véu do fascínio e não é preciso ir descartando os amantes: por que você pode cobrar o “real macCoy”, ou seja, a pessoa ela mesma, sem máscaras. A sua estratégia poderá falhar por que é com uma pessoa que você está lidando, ela vai escolher derrubar a máscara ou mantê-la. Para muitas pessoas isso é difícil e deve levar algum convencimento. Se você, por seu lado, já tiver entregado seu coração (piegas) mas se mostrar disposto a desmistificar o jogo, e demonstrar que está ciente dele e fizer um esforço em não entrar no jogo, a outra pessoa verá que não tem mais nada a ganhar em manter o jogo e terá duas alternativas: deixar a máscara ou te deixar (e convença-se que, apesar desta última doer, dói menos, pois é mais rápida e você se recuperará mais cedo do que ficar insistindo em jogar o jogo. Ademais: na verdade o seu coração é seu mesmo, não é de ninguém). No caso de indecisão da pessoa decida você mesmo terminar a relação (é mais econômico também, logo você se recupera).
Flavia |
22/02/09 - 5:08 pm | #
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Parece uma estratégia prática ao ponto de se tornar um método, mas não é. Muitos que usam a estratégia da fascinação se convencem que o amor não existe. Muitos deles vêm de uma história pregressa em que foram fascinados-subordinados (ou, ao menos, assim o interpretam). É preciso entender que o amor é sim uma ficção, mas é real. E só se torna real quando ambos, despidos, se entregam a construir a tal ficção. Para tanto é necessário que AMBOS se entreguem a esse esforço. Essa ficção só será real para o casal, não será real para o resto do mundo. O mundo e amor de casais (seja de que sexo forem) nunca foram amigos um do outro: o casamento, a constituição da família, as regras da igreja, as regras de troca em que se usa o casamento para fortalecer alianças e aumentar heranças, e mesmo as estratégias de fascínio são as formas do mundo domesticar essa fantasia tão particular e tão alienígena a ele e à qual ele (o mundo) não tem acesso nem controle.
Flavia |
22/02/09 - 5:08 pm | #
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Parece, pelo parágrafo acima, que eu aceito então a idéia que são somente as idéias que movem – tanto o mundo, quanto os casais. Devo dizer um porém: é verdade o que as avós diziam que... algo como... o amor e um casebre só não bastam... um amor e um violão... sei lá, já não me lembro. Mas funciona como que um alerta materialista à paixão extravagante. Obviamente que a relação terá que ser construída no mundo material, não só no mundo das idéias. A tal da entidade "Tempo" pode ser o tempo que leva para que se torne insuportável uma bias no equilíbrio entre o próprio conforto (as questões egoístas do que EU quero) e o esforço material que deve ser empreendido na relação (tudo o que eu faço por ELE ou por ELA). Deixe esse balanço pender – tanto pra um lado quanto para o outro – e o “Tempo” se encarregará de deixar um dos dois ou fartos, ou enfadados, não é mesmo?
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(fim)
Flavia |
22/02/09 - 5:09 pm | #
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Desculpa, mais um. Só comentário:
Que doideira esse grupo MADA! (ou: óia até onde chega a cooperação entre mulheres)
Okay
Vou botar uma mordaça, camisa de força, e não vou mais teclar a respeito.
Por que tudo tem limites
Flavia |
22/02/09 - 5:12 pm | #
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Flavia,
Intimidador seu comentário, viu! Não sei se posso respondê-lo sem prejuízo, mas vamos lá. Sobre que "a mudança do mundo nunca passar pela transformação das condições materiais", posso sugerir uma imagem grosseira mas ilustrativa. Imagine uma situação adversa qualquer: há duas maneiras de alterá-la; a primeira, mudando as condições que concorrem para a manutenção da situação -- e essa é a alternativa materialista -- e a segunda, mudando o modo como se enxerga a situação. Quando digo que a mudança não costuma acontecer conforme a primeira maneira, falo, por exemplo, do triunfo dos valores cristãos, da imposição do ressentimento, da cultura da interioridade e do declinio da política. Enfim, da inversão promovida pelos valores cristão -- contra os quais Nietzsche lutou. Os fracos ressentidos fazem medrar uma cultura que subverte os valores, avilta e desvaloriza a vida, a fim de justificar seus sofrimentos. Hegel, por exemplo, foi uma tentativa -- canhestra, talvez -- de resgatar uma Alemanha interiorizada, descentralizada, corrupta, isto é, de resgatar a autonomia e capacidade daquele povo (gosto que a leitura que o Lebrun faz dessa empresa em Hegel a luz de Nietzsche), sem apelar para as táticas cristãs. Não sei se me fiz entender, esse é um assunto complicado, mas é precisamente nesse sentido que não vejo a mudança como mudança exterior, política, social, prática, mas como mudança ideológica, psicológica e assim pouco pragmática.
Mas veja, esse materialismo a que me refiro -- e você mencionou Marx -- não se opõe ao subjetivismo, nem o anula. As noções como fetiche, os conceitos abstratos, como a própria estética marxista, são importantes, sem sombra de dúvida. O materialismo não é uma crença dogmática no domínio material ou coisa afim, de sorte que todos os outros espaços sejam negados -- ao menos não na forma que me agrada, como esboçada por Marcuse --, mas o primado da ação pragmática, da ação que busca resultados e que articula a razão com vistas em fins concretos. Portanto não enxergo uma contradição com os aspectos subjetivos.
Quanto a desconstrução: a generalização não anula as possibilidades inversas. Por isso mesmo eu mencionei que há homens nessa situação, e mesmo eu já estive. Agora, minha impressão não tem nada a ver com histórias contadas, são experiências coletadas ao longo da vida, coisa colhida em observações, comportamentos, de homens e mulheres. Ou você crê que homens e mulheres se portam igualmente? Claro que há vitimização, não há duvida de que as coisas transcorrem conforme seu relato, mas não é só isso. Até porque, eu não sei esse tipo de coisa por relatos ou confissões..
Leonardo Bernardes |
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23/02/09 - 8:54 pm | #
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As receitas, bem, é o caso semelhante ao de Ligações Perigosas. Claro, há sempre uma margem de manobra, um espaço manipulável. Basta que se identifique os interesses. Mas é claro que não dá pra reduzir um grupo inteiro a algum interesse particular, a menos que seja o caso da nota, como você mencionou. Nesse caso, porém, perde-se o encantado da sedução: que é o volutarismo. O que há de melhor é conquistar, levar o outro a querer aquilo que você quer, se houvesse uma receita, ela seria então "uma receita para receitas". Algo meramente formal. Nisso eu creio, embora não como uma panaceia.
Você de repente desembocou no meu texto, Manuel Bandeira dizia: "Não quero amar, quero ser amado". Há sempre um descompasso entre os pares, mas em todo caso. O segredo de uma boa "receita", então, é o modular o amor aos meios de sedução -- ser amado. As pessoas pensam que só amar é o bastante e se entregam a uma devoção doentia que longe de fomentar a relação, acaba por miná-la -- como um doce a que se acrescente muito açúcar. Mas a ilusões não se alimentar por vontade, Flavia, por isso a pergunta "por que se alimenta ilusões" não faz sentido a menos que seja uma pergunta pela mecanismo psicológicos que solicitam essa engrenagem. Algo como: "Que configuração mental autoriza uma espécie de semelhante ilusão?". É sempre um cálculo -- há um equilíbrio em jogo na anuẽncia a certas ilusões.
Por fim, não acho que há desequilíbrio entre razão e sensibilidade. A desamornia é cultural. Isto é, o desequilíbrio é uma exigência sistêmica de uma sociedade em colapso. É a conquistada da igualdade pela desigualdade. Para suprir tantas demandas e necessidades pré-fabricadas, as pessoas com frequência atentam contra essa "ordem natural" entre razão e sensibilidade. Agora, os que concluem que o amor não existe, após empregarem isso que você chama de estratégia de fascinação, são da mesma natureza daqueles que não aceitam pensar o mundo como ficção, artifício. (Escrevi isso antes de ter lido a frase seguinte, que você afirma o mesmo). A ficção é mesmo real. É ficção no sentido de que é fabricada -- e não "dada". Sua natureza ficcional não anula sua realidade. É preciso esquecer ou abandonar esse background natural a que todas pessoas esperam encontrar, como se tudo estivesse desenhado e a possibilidade de intevenção degenerasse a "pureza" do sentimento e comprometesse sua autenticidade. Quantas vezes um bom sentimento não nasce de uma circunstâncias claramente artificial. Nada da clamourização habitual do amor.
Leonardo Bernardes |
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23/02/09 - 8:56 pm | #
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Voltando então ao meu argumento materialista, ele não expressa o sentimento de que o mundo se move pelas ideias, mas a preferencia, diante da necessidade de se alterar o mundo, pelo caminho mais cômodo de uma mera mudança de Weltbild. Como se o mundo fosse só um certo modo de olhar e para transformá-lo bastasse alguma passos pro lado e um exercício de inspiração. O materialismo, de alguma maneira, é a crença de que a constituição material do mundo enforma mesmo os constituintes internos, psicológicos. E que, portanto, é preciso primeiro mudar as condições exteriores que disparam as mudanças internas -- e isso é imensamente certo, por ex., sob o ponto de vista da teoria psicanalítica.
Non sei se por fim esclareci o meu "materialismo" -- e se dei conta do seu comentário. Desculpa a demora, esses dias de carnaval passaram corridos e com algumas atividades. Abraços
Leonardo Bernardes |
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23/02/09 - 8:57 pm | #
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Leo, não é preciso dar respostas a jato. Pode ficar liberado para responder ou mesmo não responder no tempo que quizer.
A minha resposta é muito comprida, por isso acabei colocando ela num blog antigo que está sendo retomado só por que você me cutuca com suas perguntas
está no endereço http://flaviabrites.blogspot.com/
A respeito de intimidações, me admiraria muito uma pessoa que tem um blog tão inteligente se intimidar (a verdade é que cá entre nós eu acho que você está fazendo charme. absolutamente não acredito que você possa ser intimidado)
um abraço
Flavia |
01/03/09 - 10:19 pm | #
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Flavia,
Excelente! Quero escrever um post e organizar meus horários (as aulas retornaram), assim que ajeitar essas coisas vou lá ler sua resposta.
Quanto à intimidação, acontece, creia. Claro, é preciso um contexto semelhante ao que desenhei naquele outro texto, mas acontece. Sobretudo porque sou inseguro em relação a algumas coisas. Mas não é frequente. Abraços
Leonardo Bernardes |
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02/03/09 - 6:20 pm | #
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Commenting by HaloScan
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